• Alice Galvão

Depoimentos sobre a experiência profissional da comunidade LGBTQIA+

O mundo que conhecemos é, com certeza, mais evoluído e melhor do que o mundo que nossos avós e pais conheceram. Mas o quanto ainda precisamos da mudança? Quem sai ferido da vida corrida e preconceitos velados que continuam a existir em cada fresta da nossa sociedade?

Em meio a celebração do mês e dia do Orgulho LGBTQIA+, nos lembramos e celebramos a vida, respeito, diversidade e amor. Porém, não é só nesse mês que devemos escutar a comunidade, respeitar e refletir toda dor e sofrimento que eles enfrentam todos os dias da vida deles, por apenas serem quem são. E, certamente, não é só em junho que devemos rever nosso comportamento e tomar consciência do nosso privilégio.

Ser LGBTQIA+ é enfrentar vários obstáculos, como diz o ditado “Matar um leão por dia”, matar um leão por dia correndo de mais dez. Hoje trazemos para vocês depoimentos de membros da Mude! que fazem parte da comunidade, contando um pouco de como é a vida deles no âmbito profissional, o que eles passam, sentem, o preconceito que precisam enfrentar todos os dias e a luta por reconhecimento, respeito e espaço.

Gabriel Candeias

“Comecei a procurar trabalho desde 16 anos. Já era que todos já definiam pela voz e trejeitos. Cabelo grande colorido e estilo diferenciado dos demais. Fui em uma entrevista de emprego e logo de cara me barraram sendo assim, até pediriam para cortar o cabelo, porém vieram com a desculpa que minha condição era boa. Passou um ano e fui em outra entrevista, passei no processo seletivo. Eu conseguiria aquela vaga caso eu cortasse o cabelo e me moldasse àquela empresa até na forma de me vestir. Estava precisando, então aceitei. Chegou o dia de cortar e pintar o cabelo, um dos dias mais triste daquele ano, pois eu não me via no espelho mais! Fiquei 2 meses na empresa e percebi que existia meninos com cabelos maiores que o meu, porém só eu não poderia ter meu cabelo grande! Trabalhava com o público de início, por algum motivo me mudaram de setor e me isolando para o arquivo (sala pequena, cheio de poeira, e ser um ar circulando). Pediam para entrar por trás, pois tinha mais fácil acesso. Pois muito que bem, pedi para sair! Não aguentava mais não me ver, não ficar bem comigo mesmo. Pois assim que sai, pintei minhas unhas, meu cabelo deixei crescer e pintei de rosa. E me via feliz de novo. Passei em Moda no SENAI, e lá me abraçaram com muito amor! E logo em seguida uma empresa me contratou, não pelo o que eu era e sim pelo meu trabalho! Fui o pioneiro das gays femininas e as queer’s daquela empresa. Um lugar onde só tinha homens machistas e homofóbicos, tiveram que me engolir, pois ali eu não abaixei mais a cabeça pra ninguém. O meu setor me aceitou, tanto no meu jeito e no meu visual e lá aprendi e ensinei muita coisa sobre ser quem somos. E foi naquela empresa que percebi que tudo que passei nas outras não eram desculpas e sim homofobia velada.

Foi uma trajetória muito difícil de aceitação e posicionamento na linha da frente, para a quebra de paradigmas e barreiras. Por isso, hoje eu digo que sou a voz da resistência e a própria BIXA PWR!”

Lucas/Kellé

“Meu nome é Lucas. Podem me chamar de Kellé também.

Sou uma bixa preta, drag, afeminada e apaixonada pelas artes e pela moda. Desde que me entendo por gente, vejo como possibilidade de satisfação profissional trabalhar nesta área. Como primeira experiência no mercado, tenho a honra de estar exercendo cargo na Mude!, uma empresa, que infelizmente é exceção quando se trata de uma verdadeira preocupação com a inclusão de nós LGBTs. Ao ser questionado sobre a vivência no mercado de trabalho sendo LGBTQIA+, inevitavelmente me veio dois recortes que acredito ser de maior urgência nesta pauta (não excluindo a opressão que a comunidade como um todo passa diariamente nesse âmbito); que são a falta de acesso, equidade e empregabilidade de pessoas pretas e das pessoas não heteronormativas, com ênfase estrondosa nas mulheres trans e travestis.

Não nos contratam pelos nossos trejeitos, pelo nosso cabelo, jeito de falar, se vestir, se portar, e pelo simples fato de sermos quem somos. E somos tão valiosos! Nossa identidade carrega por si só elementos e referências que nos tornam únicos e resistentes!

Eu como pessoa racializada, que não segue o padrão estético heteronormativo e branco enfrento várias barreiras que me colocam em sentimento de atraso constante em relação às pessoas brancas, sendo elas cis-heteras e até mesmo de dentro da sigla. Esse sentimento se deu pela autoestima e confiança que por muitos anos me foi negada, e depois que construída, é ainda abalada periodicamente. Dito isso, pontuo que as mazelas do mercado de trabalho para as trans e travestis são inúmeras vezes mais violentas e exclusivas. Motivo pelo qual acredito ser a preocupação mais urgente a ser discutida e mobilizada na luta LBTQIA+ : a empregabilidade e vida da sigla T.

Por fim, gostaria de indagar não só as instituições que movem o mercado, mas também a cada indivíduo presente nele: se preocupem verdadeiramente com a reparação histórica e com a diversidade, consumam a arte de lgbts pretas, contratem-nas e tenham garantia que a saúde mental e dignidade dessas pessoas estão sendo preservadas.

E lembrem-se, somos riqueza!!”

Richard Jesus Queiroz

“É inegável que vivemos numa sociedade preconceituosa em vários aspectos, entre eles a homofobia, o machismo, sexismo e o racismo. E é com essa consciência da sociedade atual que me faz questionar o meu futuro profissional e pessoal.

Ser um LGBTQIA+ na década e século atual felizmente não é a mesma coisa que antigamente, porém ainda há pessoas com pensamentos, falas e atitudes preconceituosas que dificultam o nosso caminho. Ao longo da minha vida eu não trabalhei em muitos lugares, porém nos poucos que trabalhei fui alvo de discriminação direta a minha sexualidade e presenciei outros LGBTQIA+ serem alvo também, algumas vezes por comentários, falas e olhares completamente maldosos.

O mercado já é difícil para as pessoas cis gênero e heterossexuais, para a comunidade LGBTQIA+ o desafio é triplamente maior mesmo com o Brasil tendo legislações mais rigorosas contra a homofobia e preconceitos de gênero, esse desafio é devido a nossa sexualidade ou identidade de gênero serem mais importante que a nossa qualidade de trabalho.

Em virtude das inúmeras notícias de gays ou outros LGBTQIA+ que são vitimas de ataques verbais, agressões físicas ou de discriminação velada no mercado de trabalho ou fora dele, fazem com que a minha perspectiva de um futuro profissional e pessoal sejam abalados e eu me questione o motivo de eu levantar da cama e ir trabalhar, já que grande parte do mercado de trabalho me rejeita e discrimine só pela minha orientação sexual? Me resta algum futuro profissional?

Porém eu tive a oportunidade de entrar na MUDE! UFMG Jr., uma empresa júnior que fez eu voltar a ter esperança no mercado de trabalho e na sociedade, principalmente por causa de alguns dos seus valores: Diversidade, conexão e respeito. Nessa ejota o respeito e união é prioridade, ou seja, a minha orientação sexual não é nem levada em consideração e sim só o meu trabalho e sua qualidade, além também a MUDE! UFMG Jr. possui uma diversidade racial, de gênero e de orientações sexuais entre os membros. Penso que o mercado de trabalho devia ser mais como a MUDE! UFMG Jr. que eu me orgulho tanto de ser membro: diverso em todos os sentidos e aspectos e que preze pela união e respeito mesmo com a diversidade presente.”

Rodrigo Falqueto

“Não é sobre o amor da forma atrativa, mas sim o amor pela felicidade de ser quem sempre sonhou, o mês de junho traz a cada ano mais a diversidade.

Aaaaah, a moda me trouxe tantas coisas boas e algumas ruins né, aquele ditado "nem tudo são flores", fui modelo e sofri por ser afeminado, fui mister e cheguei a escutar: só aproveita o confinamento que você não tem chance nenhuma de ganhar, gay afeminado não ganha, entenda!

Foi triste escutar essas palavras, mas eu fui eu mesmo e aproveitei a oportunidade. O lado bom da moda são as pessoas que me fazem feliz e cada um completa e aceita o outro de uma forma tão linda, sou grato por cada pessoa que está na minha vida por amar a minha personalidade e me deixar ser livre.

Se ame, seja feliz, beije, seja quem você que ser e não deixa ninguém apagar seu brilho.”

Amanda Eufrásio

“Cresci com a moda e a arte sempre muito presentes em minha vida, mas por viver em um contexto religioso específico, e conviver em constante busca em ser aceita por alguns "amigos" por ser mulher negra, sentia que deveria me encaixar ao padrão heteronormativo e que ter sentimentos por alguém, deveria ser só pelo gênero oposto.

O que não fazia sentido pra mim, já que eu sempre acreditei no amor independente do gênero. Aos 16 anos foi quando comecei a estudar e trabalhar com moda, era um mundo completamente diferente do que eu estava acostumada. A ideia de me expressar, ser criativa, original, ser eu mesma e amar quem eu quiser, me acolheu.

A moda me acolheu, por me mostrar que posso amar e ser amada livremente.”

Algo para se pensar, né? Esse é só um pequeno recorte de um dos desafios enfrentados por eles, sem contar tantas outras pessoas em outras empresas e no mercado de trabalho. Conscientizem-se, respeitem uns aos outros, amem e procurem escutar a comunidade LGBTQIA+ não somente em junho. Todos nós somos dignos de amor e ser quem quisermos ser.

E aí, o que acharam dos depoimentos? Comentem e compartilhem para conscientizarmos todo mundo, de pouco a pouco chegamos lá. Sempre, com amor.

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